Ações durante e pós pandemia são necessárias para evitar evasão escolar


O provável aumento de índices de evasão escolar tem sido apontado por especialistas como uma das principais consequências desse período prolongado de paralisação das atividades presenciais

Foto: Luana Rodrigues.

Embora as redes de ensino venham buscando, por meio da oferta de atividades de ensino remoto, reduzir os prejuízos na aprendizagem de seus estudantes, o desafio de mantê-los engajados nos estudos é grande. 

Além da autonomia e disciplina exigidas dos alunos nessa reorganização da vida escolar, a falta de acesso ou o acesso limitado à internet configura-se como um primeiro obstáculo para que a totalidade dos estudantes seja contemplada. 

Diante desse cenário, especialistas e organizações têm reforçado a importância dos gestores educacionais e escolares desenvolverem ações específicas com foco nos alunos com maior risco de evasão durante esse período. 

Uma recomendação em comum entre as elaboradas por organismos internacionais como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Unesco e Banco Mundial é a ênfase em estratégias para acompanhar e estimular o engajamento dos estudantes. A OCDE, por exemplo, destaca: “As escolas devem desenvolver um sistema de comunicação e uma forma de checagem diária com cada aluno.”


A Organizing Engajement, uma publicação on-line especializada em conteúdos sobre educação, engajamento e equidade, elaborou um material para contribuir com o debate sobre estratégias educacionais durante a pandemia de Covid-19. Algumas das dicas presentes são o recolhimento de feedbacks constantes pela escola junto aos estudantes e pais sobre o processo de aprendizagem e as relações educacionais existentes e o estabelecimento de diálogo contínuo por meio de fóruns online, por exemplo, fortalecendo os laços de confiança entre os atores. 

Na E.E.M. Ana Costa Teixeira, situada em Itapipoca (CE), a 132 km de Fortaleza, a gestão desenvolveu um sistema de ouvidoria dos alunos por meio de um formulário on-line. “Enviamos semanalmente para entender quais são as angústias dos nossos alunos e como ele está se sentindo nesse processo e como a escola pode melhorar as relações pedagógicas para que ele se sinta contemplado diante das necessidades dele”, conta o diretor Jhonata Paixão Tabosa. Foi, por exemplo, a partir do feedback dos estudantes obtido por meio desse formulário sobre a dificuldade enfrentada por eles para baixar as videoaulas por conta de limitações no acesso a internet que os professores passaram a produzir também podcasts. 


Os pais ou responsáveis são apontados como parceiros fundamentais da escola nesse esforço de engajamento dos alunos nas atividades escolares e, por isso, outra recomendação recorrente é a comunicação com as famílias. 

O Banco Mundial sugere que os ministérios da Educação dos países forneçam todo o suporte possível às famílias, lançando mão de ferramentas como rádio, tevê e mensagens de SMS para dar dicas e conselhos aos pais sobre como apoiar seus filhos nos estudos. 

Na Unidade Escolar Hesíchia de Sousa Brito, localizada na zona rural do município de Piracuruca (PI), a gestão organizou a equipe para realizar um acompanhamento muito próximo dos acessos dos estudantes à plataforma estruturada para as atividades não presenciais. “Nosso objetivo principal é que nossos alunos não venham a se dispersar. Que esse tempo que estão afastados da escola não seja um motivo que venha a gerar um desestímulo e eles venham a evadir”, ressalta o diretor José Idelson de Brito. 

Diariamente, a equipe administrativa emite relatórios para a coordenação com a quantidade de acessos à plataforma e as informações sobre os que não estão acessando. Nesse caso, uma outra parte da equipe foi designada para entrar em contato com a família desses estudantes. 

“Nós ligamos para os pais para saber o que está acontecendo, quantas horas o filho está no celular estudando, [pedimos] que ele acompanhe, pergunte, observe. O pai nesse exato momento é o segundo elo da escola. Aquele trabalho que o coordenador da escola faz cobrando, que o diretor da escola faz indagando, monitorando, esse trabalho agora nós dividimos a responsabilidade com os pais”, explica o diretor. 


Pós pandemia 

O desenho de um plano bem estruturado do retorno das atividades pós-pandemia também é apontado como essencial para enfrentar o problema da evasão. Como os alunos serão avaliados, como será realizada a recuperação dos que apresentarem defasagem de aprendizagem, como serão repostas as aulas perdidas e como serão acompanhados os estudantes com maior propensão a evadir são alguns dos pontos fundamentais desse plano nesse sentido. 

O comitê técnico da Educação do Instituto Rui Barbosa – órgão que congrega os tribunais de contas brasileiros – elaborou uma nota técnica com recomendações aos órgãos de controle do país para durante a crise e após a retomada das aulas presenciais. Nesse segundo bloco, uma das indicações é: 

“Promover, em colaboração com entes públicos e outros atores em educação, estratégias de busca ativa das crianças e jovens que podem não retornar à escola depois que as atividades forem retomadas”. 

A necessidade de ações específicas direcionadas aos alunos em situação de vulnerabilidade ou cuja família pode ter passado por um processo de pauperização em decorrência da crise gerada pela Covid-19 é outro ponto de atenção. A Human Rights Watch, ONG internacional que atua na defesa dos direitos humanos, também produziu um relatório alertando para os impactos negativos da pandemia sobre as crianças e uma das indicações para o período pós-crise vai nessa linha: oferecer às famílias que sofreram perda de renda apoio financeiro para as despesas relacionadas à escola, como alimentação e transporte, para que esses alunos tenham condições de voltar a estudar. 

Por fim, mas não menos importante, a questão do acolhimento dos alunos no retorno às aulas é outro ponto considerado decisivo entre as ações para reduzir a evasão. No CETI Zacarias de Góis, conhecido como Liceu Piauiense, de Teresina (PI), a gestão já está projetando essa retomada das atividades com a participação dos estudantes. “Aos alunos a gente tem que perguntar o que é melhor para eles. Como você gostaria de ser recebido no seu primeiro dia de escola? O trabalho associado da gestão com o grêmio e os professores é um tripé que não vai deixar de funcionar nunca”, acredita a diretora Samara Regina Santiago. “O planejamento do primeiro dia de aula tem que ser pelo aluno e para o aluno. Porque ele se sentindo bem, isso flui de maneira feliz e tranquila dentro da escola”, complementa.  


Para saber mais: Curso de formação on-line Busca Ativa Escolar na Prática – Unicef: https://buscaativaescolar.org.br/

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