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João Alfredo Lopes Nyegray*


 Quase seis meses após a invasão russa à região ucraniana do Donbass, os militares – e alguns civis – comandados por Zelensky seguem resistindo àquele que é (ou era visto como) o segundo maior exército do mundo. Também há quase seis meses ouvimos que a queda da capital Kiev para os russos é apenas questão de tempo, e mesmo contra um exército maior e supostamente melhor treinando, os ucranianos perseveram.

Desde aquele fatídico 24 de fevereiro, o mundo todo sentiu os severos impactos da guerra. Os preços subiram, a inflação global não deu trégua e milhares de refugiados buscaram abrigo noutros países – despertando a maior crise de refúgio na Europa desde o final da Segunda Grande Guerra. Até agora, as imagens tenebrosas dos civis covardemente mortos em Bucha assombram a memória daqueles que acompanham o dia a dia do conflito.

Ainda que a economia russa tenha conseguido demonstrar alguns números positivos, mesmo sendo o país mais sancionado do mundo, tais resultados baseiam-se na alta dos preços do petróleo e gás. Estima-se que as sanções, a maciça saída de empresas multinacionais e o crescente desemprego ponham a perder 15 anos de avanços econômicos para Moscou. Do lado ucraniano, espera-se uma retração econômica de quase 50% - muito em virtude da dificuldade de exportar os itens que estavam lá. Ainda que nas últimas semanas navios com grãos estejam deixando o país atacado, a economia deve encolher substancialmente.

O que não se pode precisar, no entanto, não são fatores econômicos: são fatores militares. Quando a invasão russa começou, analistas diziam que era questão de dias até que os russos tomassem o país. A defesa ucraniana, que aos poucos foi recebendo armas novas e modernas dos países ocidentais, prosperou contra um inimigo que demonstrou estar muito aquém do esperado.

Imagens recentes de soldados russos no Donbass mostram equipamentos militares velhos, fardamento incompleto e pessoas cansadas e assustadas. Os ucranianos, por outro lado, movidos seja por patriotismo, instinto de autopreservação ou desejo de vingança, lutam ferozmente. Muitas vezes, não são nem as tropas e artilharia russa que são diretamente atacadas, mas suas longas filas de suprimentos. Os drones estadunidenses e turcos, a propósito, têm sido um desestabilizador para os russos e uma vantagem aos ucranianos. Os míísseis antinavio dinamarqueses e obuses autopropulsados estadunidenses também têm impedido a vitória russa.

Nas últimas semanas, houve avanços e retrocessos em ambos os lados, o que impede especular uma data para o fim do conflito. Há alguns meses, os russos vêm incentivando o alistamento militar de seus cidadãos em campanhas midiáticas que parecem não dizer a verdade sobre a real situação das tropas lutando no exterior. Boa parte das agências de inteligência do mundo questiona o número oficial de mortos e feridos anunciado por Moscou, apontando como certo que morreram e se feriram 10 vezes mais do que o divulgado oficialmente.

Nesse estágio da guerra, precisamos olhar além da Ucrânia: a desastrosa visita da presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, a Taiwan, despertou a ira dos chineses. Pequim, até então, tem apoiado os russos, ainda que de forma apenas retórica. Se os desentendimentos com EUA e Taiwan continuarem, os chineses podem pender em definitivo para o lado dos russos, enviando armas que são tão necessárias às tropas de Putin nesse momento. Isso sim poderia terminar a guerra em breve – mas não de forma positiva para os europeus.

*João Alfredo Lopes Nyegray, doutorando em estratégia, é coordenador do curso de Comércio Exterior e professor de Geopolítica e Negócios Internacionais na Universidade Positivo (UP).

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