Plano Safra: crédito recorde chega mais caro e acende alerta para produtores da safra de verão


 Leandro Marmo, advogado especialista em Direito do Agronegócio e CEO do João Domingos Advogados, explica que, apesar do volume histórico de recursos anunciado pelo governo, juros mais altos, burocracia e exigências bancárias podem dificultar o acesso ao crédito 


O lançamento do Plano Safra 2025/2026, com a promessa de um volume recorde de recursos para o financiamento do agronegócio, reacendeu as expectativas do setor para o início da safra de verão. Na prática, porém, especialistas alertam que o aumento das taxas de juros, a predominância de recursos atrelados ao mercado financeiro e a burocracia para contratação do crédito podem tornar o financiamento mais caro e menos acessível, justamente em um momento em que muitos produtores ainda enfrentam dificuldades para reorganizar as finanças e renegociar dívidas.


Para Leandro Marmo, advogado especialista em Direito do Agronegócio e CEO do João Domingos Advogados, o valor anunciado pelo governo não reflete, necessariamente, as condições reais encontradas pelos produtores no momento da contratação do crédito.


"O anúncio de um volume recorde de recursos gera uma percepção positiva, mas é preciso olhar para a composição do Plano Safra. A maior parte desses recursos está vinculada às taxas de mercado, acompanhando a Selic, o que torna o financiamento significativamente mais caro para quem depende do crédito rural", afirma.


Segundo o especialista, apenas parte dos recursos conta com juros equalizados pelo Tesouro Nacional. O restante é formado por linhas de crédito livres, sujeitas às condições praticadas pelas instituições financeiras, cenário que amplia o custo das operações.


Outro fator que preocupa é a diferença entre a taxa anunciada oficialmente e o custo efetivamente pago pelo produtor.


"Em muitos casos, o financiamento é condicionado à contratação de seguros, títulos de capitalização, consórcios e outros produtos financeiros. Isso faz com que o custo efetivo da operação seja muito superior ao divulgado inicialmente", explica.


Além do custo, a burocracia permanece como um dos principais obstáculos para o acesso aos recursos. Projetos técnicos, Cadastro Ambiental Rural (CAR) regularizado, documentação da propriedade, análises financeiras e demais exigências podem atrasar a liberação do crédito e comprometer o calendário agrícola.


"Quem não consegue acessar rapidamente os recursos subsidiados acaba recorrendo às linhas de mercado, mais caras, ou perde a janela ideal de plantio, o que pode impactar diretamente a produtividade e a rentabilidade da safra", destaca. Ressalta o Especialista.


Diversificação reduz riscos


Diante desse cenário, Leandro Marmo recomenda que produtores adotem uma estratégia diversificada de financiamento, evitando depender exclusivamente do crédito bancário tradicional.


"O ideal é combinar diferentes instrumentos financeiros. O Plano Safra continua sendo importante, mas deve fazer parte de uma estratégia mais ampla de gestão financeira da propriedade."


Entre as alternativas está o barter, operação em que o produtor recebe insumos e realiza o pagamento com parte da produção futura por meio de uma Cédula de Produto Rural (CPR).


"O barter pode ser uma ferramenta eficiente, desde que o contrato seja cuidadosamente analisado. É fundamental negociar com empresas consolidadas e verificar cláusulas relacionadas à qualidade do produto, prazos, critérios de entrega e penalidades."


Outra recomendação é utilizar mecanismos de proteção contra a volatilidade dos preços agrícolas, como o hedge por meio de contratos futuros.


"O hedge permite ao produtor garantir uma margem de rentabilidade previamente conhecida. Embora ele abra mão de ganhos maiores caso o preço suba, também reduz o risco de prejuízos provocados por quedas bruscas no mercado."


Atenção aos contratos


O especialista também alerta para a importância de observar a modalidade contratual utilizada pelas instituições financeiras.


"Nem toda operação destinada ao agronegócio garante ao produtor as proteções previstas na legislação do crédito rural. Dependendo do título utilizado, direitos importantes, como a possibilidade de prorrogação da dívida em situações de frustração de safra, podem ser objeto de discussão judicial. Por isso, a análise jurídica do contrato antes da assinatura é indispensável." Explica.


Para Leandro Marmo, o cenário atual reforça que planejamento financeiro, gestão de riscos e segurança jurídica serão fatores decisivos para o sucesso da safra de verão.


"Hoje, buscar crédito não é suficiente. O produtor precisa entender quanto realmente vai pagar, quais direitos possui e quais instrumentos podem proteger sua atividade. Uma decisão tomada antes do plantio pode definir o resultado financeiro de toda a safra.", conclui.


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