Crise do agro ultrapassa a porteira e ameaça toda a cadeia produtiva

 


Filipe Denki, advogado especialista em recuperação judicial e agronegócio, alerta que o avanço do endividamento e da inadimplência revela uma crise estrutural que já atinge toda a cadeia produtiva


O agronegócio brasileiro enfrenta uma crise que deixou de estar restrita aos produtores rurais e passou a atingir diferentes elos da cadeia produtiva. O aumento de 33% nos pedidos de recuperação judicial no segmento agrícola no primeiro trimestre de 2026 reforça um cenário que já vinha sendo desenhado por indicadores de endividamento, margens comprimidas e dificuldades de pagamento. Para Filipe Denki, advogado especialista em recuperação judicial e agronegócio e vice-presidente do Instituto de Direito Empresarial do Centro-Oeste (IDECO), o momento exige uma mudança na forma como o problema é enfrentado, com foco em reestruturação e governança.


Segundo dados da Serasa Experian, o agronegócio registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, alta de 56,4% em relação ao ano anterior e maior volume desde o início do monitoramento do setor. Entre os produtores rurais pessoa jurídica, o crescimento foi de 84,1%, enquanto os produtores pessoa física tiveram alta de 50,7%. Goiás, segundo estado com maior número de pedidos, aparece como um dos exemplos da dimensão que a crise alcançou.


“O cenário que estamos vivendo não é uma surpresa para quem acompanha a evolução do endividamento do agronegócio desde 2024. Os números já mostravam uma combinação preocupante de dívidas de longo prazo, margens operacionais cada vez menores e uma grande quantidade de pequenos e médios produtores sem capacidade financeira para absorver crises de preço ou de produção”, explica Filipe Denki.


Para o especialista, um dos principais desafios está no fato de que os pedidos de recuperação judicial representam apenas uma pequena parcela dos produtores rurais que enfrentam dificuldades financeiras. Uma parcela significativa dos problemas permanece fora do sistema formal, em negociações diretas com bancos, cooperativas, fornecedores e credores privados.


“Existe um paradoxo importante. Ao mesmo tempo em que os pedidos de recuperação judicial atingem níveis recordes, eles ainda representam menos de 1% dos produtores rurais brasileiros. Isso significa que existe uma parcela relevante de endividamento sendo administrada de maneira extrajudicial, muitas vezes sem uma estratégia estruturada de reequilíbrio financeiro. É justamente nesse espaço que está uma parte importante da crise”, afirma.


De acordo com Denki, o adiamento da tomada de decisões pode agravar ainda mais a situação financeira dos produtores. A demora em reconhecer que a dificuldade deixou de ser pontual e passou a ser estrutural pode reduzir as alternativas disponíveis para a reestruturação das dívidas.


“Muitos produtores passam por um período de negação e demoram a reconhecer a dimensão real do problema. O tempo, nesse cenário, é um fator decisivo. Enquanto a situação é postergada, juros e multas aumentam, o patrimônio disponível é consumido e os credores podem se tornar menos flexíveis. O que poderia ser uma reestruturação viável em um determinado momento pode se tornar muito mais difícil alguns meses depois”, alerta o advogado.


A crise também começa a atingir empresas que tradicionalmente funcionam como parceiras dos produtores rurais, como revendas e fornecedores de insumos. Grandes companhias ligadas ao setor também enfrentam processos de reestruturação, demonstrando que o problema já alcança segmentos industriais e logísticos.


“Quando a crise chega às revendas, aos fornecedores de insumos e a empresas de grande porte, fica claro que não estamos diante de um problema isolado do produtor rural. A dificuldade de pagamento começa na ponta, mas se espalha pela cadeia. Se o agricultor não consegue produzir e vender com margem, ele reduz sua capacidade de pagamento, o que afeta quem vende insumos, quem financia a operação e, posteriormente, toda a cadeia de processamento e distribuição”, avalia Denki.


Na avaliação do especialista, a flexibilização das condições de crédito e o alongamento de prazos são medidas importantes, mas não resolvem sozinhos uma crise de rentabilidade. Para ele, o desafio passa pela capacidade de geração de caixa das empresas e produtores.


“O crédito mais flexível pode aliviar a pressão no curto prazo, mas não resolve uma operação que deixou de ser rentável. Se o produtor não consegue vender sua produção com margem ou se a indústria não consegue repassar seus custos, a simples redução da parcela ou o adiamento da dívida apenas empurra o problema para frente. A recuperação precisa estar acompanhada de uma estratégia para recuperar a rentabilidade operacional”, destaca.


Para 2026, Denki avalia que o número de pedidos de recuperação judicial pode continuar crescendo, diante da dificuldade de pagamento acumulada por parte do setor. Nesse contexto, a recuperação judicial pode representar não apenas uma medida de proteção contra a insolvência, mas também uma oportunidade de reorganização administrativa e financeira.


“A recuperação judicial força uma mudança de estrutura que muitas empresas precisam fazer antes mesmo de chegar ao limite: criar governança, organizar demonstrações financeiras, separar patrimônio, estabelecer controles internos e desenvolver um planejamento estratégico real. Sem essas medidas, qualquer renegociação de crédito tende a ser apenas uma solução temporária”, afirma.


O especialista ressalta ainda que produtores e empresas que enfrentam dificuldades podem ter ativos e patrimônio capazes de contribuir para uma reestruturação, desde que sejam utilizados de maneira estratégica. A avaliação antecipada da situação financeira e patrimonial, segundo ele, é fundamental para ampliar as possibilidades de negociação.


“A crise do agronegócio já ultrapassou a porteira. Ela está atingindo toda a cadeia e exige uma resposta igualmente ampla. O ponto mais urgente agora é reconhecer o problema antes que ele se torne irreversível. Quanto mais cedo houver diagnóstico, planejamento e uma estratégia de reestruturação, maiores são as chances de preservar a atividade produtiva e evitar que uma crise financeira se transforme em uma insolvência definitiva”, conclui.


Filipe Denki é advogado especialista em recuperação judicial e agronegócio e vice-presidente do Instituto de Direito Empresarial do Centro-Oeste (IDECO).


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