Artigo - Segurança do paciente exige integração em toda a jornada de cuidado

 

Por Dario Ferreira


Durante muito tempo, falar em segurança do paciente significou olhar prioritariamente para o ambiente hospitalar. Prevenção de infecções, cirurgia segura, identificação correta do paciente e resposta rápida diante de situações críticas continuam sendo pilares indispensáveis. Mas o avanço das doenças crônicas exige ampliar esse olhar.

 

O tema escolhido para o Dia Mundial da Segurança do Paciente, celebrado em 17 de setembro, reforça essa discussão ao direcionar a atenção para o cuidado seguro das doenças não transmissíveis. Hipertensão, diabetes, insuficiência cardíaca, câncer e doenças respiratórias crônicas acompanham o paciente por longos períodos e fazem com que ele transite por diferentes pontos da assistência.

 

É justamente nesse percurso que surgem riscos. Uma informação que não acompanha o paciente, uma alteração de medicamento que não chega ao profissional seguinte, um exame sem o devido acompanhamento ou uma orientação de alta desconectada do cuidado ambulatorial podem comprometer toda a jornada.

 

Segurança, portanto, não pode ser medida apenas pela ausência de eventos adversos durante uma internação. Ela também está na capacidade de antecipar riscos, garantir continuidade e disponibilizar a informação necessária no momento em que uma decisão precisa ser tomada.

 

Indicadores precisam levar a decisões

 

Na gestão assistencial, protocolos são fundamentais, mas sua existência não garante que o cuidado esteja acontecendo como planejado. É preciso medir adesão, acompanhar resultados e entender por que determinados casos ficam fora do fluxo esperado.

 

Em situações que exigem resposta rápida, o tempo até a administração de antibiótico, quando há indicação clínica, é um exemplo. Alcançar conformidade superior a 90% para administração em menos de uma hora mostra como fluxos bem definidos, treinamento das equipes e monitoramento contínuo podem tornar a assistência mais consistente.

 

Mas um bom resultado não encerra a análise. É preciso olhar também para os casos que ficaram fora da meta e identificar onde ocorreu o atraso. É essa investigação que transforma um indicador em ferramenta de gestão. A mesma lógica vale para reinternações, eventos adversos, adesão a protocolos e conciliação medicamentosa.

 

Nas doenças crônicas, há um desafio adicional. Um paciente com diabetes ou insuficiência cardíaca pode passar pelo consultório, pronto atendimento, internação, realizar exames, ser acompanhado por diferentes especialistas e depois retornar ao ambulatório. Cada transição representa um ponto de atenção.

 

Hospital e ambulatório, portanto, não podem funcionar como mundos separados. A alta é uma transição do cuidado, e não seu encerramento. Para que seja segura, informações sobre condutas, medicamentos e acompanhamento precisam chegar a quem dará continuidade à assistência.

 

A tecnologia pode contribuir com prontuários integrados, alertas clínicos e acompanhamento de indicadores. Mas digitalizar um processo não significa, por si só, torná-lo seguro. Se o fluxo é mal desenhado, a tecnologia apenas reproduz essa fragilidade em outro ambiente.

 

Segurança também é responsabilidade da gestão

 

Segurança do paciente não deve ser uma agenda restrita a determinados setores ou profissionais. Ela precisa fazer parte das decisões da liderança, com acompanhamento de resultados, revisão de processos e capacitação das equipes.

 

Nas doenças crônicas, o próprio paciente também ocupa posição central. Grande parte do cuidado acontece fora do hospital ou do consultório: tomar corretamente os medicamentos, reconhecer mudanças no quadro, saber quando procurar atendimento e compreender os próximos passos do tratamento. Informação clara e participação do paciente também são elementos de segurança.

 

O Dia Mundial da Segurança do Paciente deste ano amplia, portanto, uma discussão necessária. Tornar a assistência mais segura não significa apenas reduzir riscos dentro dos hospitais, mas construir uma jornada em que os diferentes pontos do cuidado consigam se comunicar e responder às necessidades do paciente.

 

Talvez esteja aí um dos principais desafios da saúde: fazer com que protocolos, indicadores, tecnologia e pessoas funcionem de maneira integrada. O dado mostra onde estamos. A diferença está no que fazemos a partir dele.

 

(*) Dario Ferreira é Médico cardiologista pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP e Diretor Médico Corporativo na Kora Saúde | Governança clínica e experiência do paciente.

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